Atenção Primária à Saúde · Linha de cuidado em Dor
Não se diagnostica "a causa anatômica" da dor lombar na UBS — e não é preciso. A tarefa é classificar o paciente em uma de três vias na primeira consulta, com anamnese e exame neurológico dirigidos. Essa triagem, e não a imagem, é o que determina conduta e prognóstico.1,2,4
Sete perguntas resolvem a triagem. Cada uma existe porque muda a via, não porque "faz parte da história".
| Pergunta | Resposta que altera a conduta | O que discrimina |
|---|---|---|
| Onde dói mais: coluna ou perna/braço? | Dor do membro > dor axial, em faixa distal | Separa via verde de via âmbar (radiculopatia) |
| Há quanto tempo e como começou? | > 12 semanas; início insidioso sem fator mecânico | Cronificação (muda o alvo terapêutico); início insidioso levanta causa específica |
| A dor melhora com repouso ou piora à noite? | Dor de repouso, noturna, que obriga a levantar | Sugere neoplasia, infecção ou dor inflamatória; dor mecânica melhora deitado8 |
| Rigidez matinal — quanto tempo? | > 30–60 min, melhora com exercício e piora com repouso, idade < 45 anos | Espondiloartrite axial → reumatologia25 |
| Perdeu peso? Já teve câncer? Tem febre? | Qualquer resposta positiva | História de câncer é a única bandeira isolada com VPP relevante para malignidade11 |
| Há alteração para urinar ou evacuar? Dormência entre as pernas? | Retenção, incontinência, anestesia em sela | Cauda equina — emergência cirúrgica13 |
| O que você já usou, em que dose, e por quanto tempo? | Tratamento nunca otimizado | Evita encaminhamento prematuro; é item obrigatório da regulação9,10 |
Bandeiras isoladas têm alta sensibilidade e baixa especificidade: usadas uma a uma geram investigação excessiva. O valor está na combinação e no contexto.11,12 A tabela abaixo já traz a conduta e o prazo, não apenas o achado.
| Achado | Hipótese | Conduta imediata na UBS | Prazo |
|---|---|---|---|
| Retenção ou incontinência urinária/fecal, anestesia em sela, déficit motor bilateral em MMII | Síndrome da cauda equina | Não pedir exame na UBS. Transferência para PS com neurocirurgia; sondagem se retenção | Mesmo dia |
| Déficit motor agudo e progressivo (MRC ≤ 3) | Compressão radicular/medular grave | Transferência para PS com neurocirurgia | Mesmo dia |
| Marcha atáxica, hiper-reflexia, Babinski ou Hoffmann, perda de destreza manual | Mielopatia cervical | RM cervical urgente + neurocirurgia; orientar evitar trauma cervical | Mesmo dia a 72 h |
| Febre + dor axial; UDIV, cateter, diálise, imunossupressão, infecção recente | Espondilodiscite / abscesso epidural | Hemograma, PCR, VHS, hemoculturas (2 pares) antes de antibiótico + RM24 | Mesmo dia |
| Câncer conhecido + dor axial nova, dor noturna ou déficit | Metástase / compressão medular | RM de toda a coluna; se déficit, corticoide e transferência imediata | Mesmo dia a 72 h |
| Perda ponderal, dor progressiva, idade > 50 anos, VHS elevada, sem câncer conhecido | Neoplasia primária ou oculta | Hemograma, VHS, PCR, cálcio, fosfatase alcalina, eletroforese de proteínas, PSA; RX + RM | ≤ 2 semanas |
| Trauma (mesmo trivial se osteoporose), corticoterapia, idade > 70 anos | Fratura vertebral | RX em AP e perfil; TC se dúvida ou dor desproporcional; investigar osteoporose | ≤ 2 semanas |
| Dor inflamatória < 45 anos, rigidez matinal > 30 min, alternância glútea, uveíte, psoríase, DII | Espondiloartrite axial | VHS, PCR, HLA-B27, RX de sacroilíacas → reumatologia25 | ≤ 4 semanas |
| Dor lombar de forte intensidade, pulsátil, em paciente vascular; dor referida com sinais sistêmicos | Aneurisma de aorta, cólica renal, pancreatite, pielonefrite, causas ginecológicas | Exame abdominal e vascular; US/TC conforme a suspeita | Conforme quadro |
| Manobra | Achado relevante | S / E | Uso prático |
|---|---|---|---|
| Marcha nas pontas (S1) e nos calcanhares (L5) | Incapacidade unilateral | — | Rastreio motor mais rápido que a força segmentar isolada |
| Lasègue (elevação da perna estendida) | Dor radicular reproduzida entre 30° e 70° | 0,92 / 0,28 | Sensível: negativo afasta hérnia com radiculopatia14 |
| Lasègue cruzado | Dor no membro sintomático ao elevar o contralateral | 0,28 / 0,90 | Específico: positivo confirma14 |
| Reflexos patelar (L4) e aquileu (S1) | Assimetria ou abolição | — | Objetiva a raiz; assimetria vale mais que intensidade absoluta |
| Sensibilidade por dermátomo + força por miótomo | Déficit coerente com uma única raiz | — | Confirma padrão radicular e define a raiz (Quadro 3B) |
| Teste de Spurling (cervical) | Dor irradiada ao membro superior à extensão + rotação ipsilateral | ≈0,50 / ≈0,90 | Específico para radiculopatia cervical17 |
| Distração cervical | Alívio da dor braquial com tração axial | ≈0,44 / ≈0,90 | Compõe o agrupamento de Wainner: 4/4 achados → probabilidade pós-teste ≈ 90%18 |
| Hoffmann, Babinski, clônus, Romberg, marcha em tandem | Qualquer sinal de neurônio motor superior | — | Mielopatia — muda a via para vermelha19,20 |
| Teste postural da estenose | Dor melhora ao fletir o tronco / apoiar-se no carrinho; piora ao estender | — | Claudicação neurogênica; ausência de dor ao sentar é o achado mais útil16 |
| Raiz | Motor | Sensitivo | Reflexo |
|---|---|---|---|
| L4 | Dorsiflexão do pé (tibial anterior), extensão do joelho | Face medial da perna e do pé | Patelar |
| L5 | Extensão do hálux, abdução do quadril (Trendelenburg) | Dorso do pé, 1º espaço interdigital | Nenhum |
| S1 | Flexão plantar (andar na ponta dos pés) | Borda lateral do pé, planta | Aquileu |
| C5 | Abdução do ombro (deltoide) | Face lateral do braço | Bicipital |
| C6 | Flexão do cotovelo, extensão do punho | Antebraço lateral, polegar e indicador | Braquiorradial |
| C7 | Extensão do cotovelo, flexão do punho | Dedo médio | Tricipital |
| C8–T1 | Flexores profundos dos dedos, interósseos (abdução) | 4º e 5º dedos, borda ulnar | Nenhum |
Registrar sempre a força pela escala MRC (0–5). MRC ≤ 3 progressivo é critério de via vermelha. Na radiculopatia cervical, C7 responde por cerca de 60% e C6 por 20% dos casos.36
Frequências aproximadas entre adultos que procuram atenção primária por dor lombar. A ordem de grandeza — 9 em cada 10 pacientes sem causa estrutural identificável — é o que justifica não investigar todo mundo.2,3
| Diagnóstico | Frequência | Pista clínica que o levanta |
|---|---|---|
| Lombalgia inespecífica (mecânica, miofascial, discogênica, facetária) | 85–90% | Dor axial, mecânica, exame neurológico normal, sem bandeiras |
| Hérnia discal com radiculopatia | 4–5% | Dor da perna > dor lombar, dermátomo definido, Lasègue positivo |
| Estenose de canal lombar | ≈3% | > 60 anos, claudicação neurogênica, alívio ao fletir o tronco |
| Fratura vertebral por compressão | ≈4% | Idoso, corticoide, osteoporose, dor de início súbito após esforço trivial |
| Espondilolistese | ≈2% | Dor à extensão, degrau à palpação, jovem atleta ou idoso degenerativo |
| Espondiloartrite axial | 0,3–5% | Dor inflamatória, < 45 anos, resposta marcada a AINE |
| Neoplasia (metástase, mieloma) | ≈0,7% | Câncer prévio, perda ponderal, dor noturna, idade > 50 anos |
| Síndrome da cauda equina | ≈0,04% | Disfunção esfincteriana, anestesia em sela, déficit bilateral |
| Infecção espinhal | ≈0,01% | Febre, foco infeccioso, UDIV, imunossupressão |
| Dor referida visceral (aorta, rim, pâncreas, pelve) | ≈2% | Dor não modificada pela posição ou pelo movimento |
| Diagnóstico | Frequência | Pista clínica que o levanta | |
|---|---|---|---|
| 🟢 | Cervicalgia mecânica inespecífica e cefaleia cervicogênica | causa mais comum | Dor axial e escapular, piora postural, exame neurológico normal |
| 🟠 | Radiculopatia cervical | ≈85/100 mil/ano | Dor braquial em dermátomo, Spurling positivo, déficit segmentar |
| 🔴 | Mielopatia espondilótica degenerativa | Rara | Sintomas bilaterais, marcha, mãos, sinais de NMS, esfíncteres19 |
| 🟠 | Desordem associada ao "chicote" (whiplash) | — | Trauma por aceleração-desaceleração; aplicar regra canadense da coluna cervical |
| 🔴 | Causas graves não vertebrais | Raras | Dissecção arterial, tumor de Pancoast, meningite, síndrome coronariana, instabilidade C1–C2 na artrite reumatoide |
Não solicitar imagem em dor lombar ou cervical sem bandeira vermelha e sem déficit neurológico, nas primeiras 6 semanas. Imagem precoce não melhora dor, função nem qualidade de vida, e aumenta cirurgia, custo e ansiedade.21
Achados degenerativos são ruído de fundo: 37% dos assintomáticos aos 20 anos e 80% aos 50 têm degeneração discal lombar22; 87,6% dos adultos assintomáticos têm protrusão discal cervical à RM.23 Laudar sem correlacionar cria doença iatrogênica.
| Situação | Exame | Justificativa e ressalvas |
|---|---|---|
| Dor inespecífica, < 6 semanas, sem bandeiras | Nenhum | Padrão-ouro é a reavaliação clínica em 2–4 semanas |
| Suspeita de fratura, deformidade, espondilolistese; trauma | RX em AP e perfil (dinâmico se instabilidade) | TC quando o RX é inconclusivo ou a dor é desproporcional |
| Déficit neurológico progressivo, cauda equina, mielopatia, suspeita de infecção ou tumor | RM com e sem contraste, urgente | Exame de escolha para medula, raízes, disco, medula óssea e partes moles |
| Radiculopatia ou estenose refratária ≥ 6 semanas com intenção de intervenção | RM eletiva | Sem candidatura a procedimento, a imagem não muda a conduta38 |
| Contraindicação à RM (marca-passo, claustrofobia grave) | TC ± mielo-TC | Sensibilidade inferior para partes moles |
| Suspeita sistêmica (neoplasia, infecção, inflamatória) | Hemograma, VHS, PCR, cálcio, fosfatase alcalina, eletroforese de proteínas, PSA, HLA-B27, hemoculturas | VHS e PCR normais reduzem substancialmente a probabilidade de infecção ou neoplasia |
| Dúvida entre radiculopatia e neuropatia periférica (p. ex. diabético) | Eletroneuromiografia após 3–4 semanas | Uso restrito; não substitui a RM na definição anatômica |
O eixo do tratamento é não farmacológico. O fármaco é adjuvante, na menor dose eficaz e pelo menor tempo, para permitir movimento — não para abolir a dor.5,6,7
| Cenário | Fazer | Não fazer |
|---|---|---|
| Lombalgia aguda inespecífica | Explicar o prognóstico favorável; manter atividade e trabalho; calor superficial; analgésico por período curto; retorno em 2–4 semanas | Repouso no leito, imagem, opioide, órtese lombar |
| Lombalgia crônica primária (> 12 semanas) | Exercício estruturado é a intervenção central28; educação; terapia cognitivo-comportamental; cuidado biopsicossocial multiprofissional; AINE por períodos curtos | A OMS recomenda contra uso rotineiro de opioides, antidepressivos tricíclicos, duais, anticonvulsivantes, relaxantes musculares, corticoides, TENS, tração, ultrassom terapêutico e cintas lombares7 |
| Radiculopatia lombossacra aguda | Mesma base + analgesia mais intensa por curto prazo; fisioterapia; reavaliação neurológica seriada; 60–80% melhoram em 6–12 semanas | Pregabalina e gabapentina não superaram placebo na ciática33; corticoide sistêmico de rotina |
| Estenose de canal com claudicação | Exercício em flexão, condicionamento aeróbico, controle de peso; adaptar marcha | Imobilização; repouso prolongado |
| Cervicalgia mecânica | Exercício de fortalecimento cervicoescapular, mobilização/manipulação, educação postural, analgesia curta35 | Colar cervical, imobilização prolongada, repouso |
| Radiculopatia cervical | Manejo conservador por 6 semanas; exercício e tração manual conforme tolerância; a maioria melhora | Manipulação cervical de alta velocidade se houver suspeita vascular ou mielopatia |
| Mielopatia cervical | Encaminhamento cirúrgico; a cirurgia estabiliza ou melhora a função em quadros moderados e graves20 | Tratamento conservador prolongado; fisioterapia com manipulação |
| Fármaco | Posologia usual | Duração | Cuidados |
|---|---|---|---|
| Dipirona | 500–1000 mg VO 6/6 h | 5–7 dias | Primeira escolha na dor aguda leve a moderada |
| Ibuprofeno | 400–600 mg VO 8/8 h | 5–7 dias | Menor dose eficaz. Evitar em TFG < 30, insuficiência cardíaca, úlcera, anticoagulação. IBP se risco gastrintestinal. Diclofenaco tem o maior risco cardiovascular da classe |
| Naproxeno | 250–500 mg VO 12/12 h | 5–7 dias | |
| Diclofenaco | 50 mg VO 8/8 h | ≤ 5 dias | |
| Paracetamol | 500–750 mg VO 6/6 h | Curto | Não superou placebo na lombalgia aguda30; usar como adjuvante quando o AINE é contraindicado |
| Ciclobenzaprina | 5–10 mg VO à noite | 3–7 dias | Benefício pequeno e de baixa certeza; sedação e tontura frequentes31. Evitar acima de 65 anos |
| Amitriptilina / nortriptilina | 12,5–25 mg VO à noite, titular | Reavaliar em 4–6 sem | Reservar para dor neuropática; sem eficácia demonstrada na lombalgia inespecífica32. Anticolinérgico: cautela no idoso |
| Duloxetina | 30 mg/dia → 60 mg/dia | Reavaliar em 6 sem | Efeito modesto; não recomendada como rotina na lombalgia crônica primária7 |
| Gabapentina | 300 mg/dia, titular até 1800 mg/dia | Reavaliar em 4 sem | Sem eficácia comprovada na ciática33; ajustar na doença renal |
| Codeína / tramadol | 30 mg / 50 mg, resgate | < 7 dias | Apenas resgate em dor intensa refratária. Nunca de rotina, nunca na dor crônica primária7. Documentar plano de retirada |
O melhor preditor de incapacidade em 12 meses não é o achado de imagem — é o perfil psicossocial. Rastrear na 2ª a 4ª semana e estratificar o cuidado reduz incapacidade e custo.26,27
Estratificação (STarT Back): baixo risco → educação e orientação; risco médio → fisioterapia; alto risco → fisioterapia com abordagem psicologicamente informada e equipe multiprofissional (eSF, NASF, psicologia, terapia ocupacional).26
Encaminhamento terciário não é sinônimo de cirurgia. A maioria dos casos refratários tem destino em serviço de dor ou reabilitação, não em centro cirúrgico. Os prazos abaixo compatibilizam evidência clínica e critérios de regulação do SUS.9,10
| Via | Condição | Destino | Prazo |
|---|---|---|---|
| Emergência | Síndrome da cauda equina; déficit motor agudo progressivo; mielopatia aguda ou rapidamente progressiva; suspeita de abscesso epidural ou espondilodiscite; compressão medular metastática; fratura instável ou trauma; suspeita de dissecção cervical | PS com neurocirurgia / cirurgia de coluna — transferência, não agendamento | Mesmo dia |
| Prioritário | Suspeita de neoplasia; fratura vertebral osteoporótica sintomática; radiculopatia com déficit motor estável relevante (MRC 3–4); mielopatia cervical leve e estável; espondiloartrite axial | Coluna (neurocirurgia/ortopedia), reumatologia ou oncologia conforme a hipótese | 2 a 4 semanas |
| Eletivo | Lombociatalgia ou cervicobraquialgia refratária a tratamento clínico otimizado por 4–6 semanas, com correlação clínico-radiológica; estenose lombar com claudicação incapacitante > 3 meses; deformidade progressiva | Ambulatório de coluna / OCI de Ortopedia (PMAE)9 | Regulação eletiva |
| Dor | Dor crônica > 3 meses com incapacidade significativa, refratária a exercício e tratamento farmacológico otimizado, sem indicação cirúrgica | Serviço/ambulatório de dor — não encaminhar a cirurgia8 | Regulação eletiva |
Termos e manobras semiológicas, em ordem alfabética
Material complementar ao Protocolo de dor lombar e cervical na UBS. Cada bloco é independente — pode ser consultado durante o atendimento sem precisar reler o documento inteiro.
Perda ou diminuição da sensibilidade na região que tocaria uma sela de cavalo — períneo, área perianal, genitais e face interna superior das coxas. É achado clássico e de alto valor na síndrome da cauda equina.
Como pesquisar: tocar com um chumaço de algodão (toque leve) ou a ponta romba de um objeto (dor) nessa região, comparando os dois lados e perguntando se a sensação é igual e normal.
Reflexo cutâneo-plantar que avalia integridade da via piramidal (neurônio motor superior).
Como pesquisar: com objeto rombo (cabo do martelo de reflexos, ponta de uma chave), estimular a borda lateral da planta do pé, partindo do calcanhar em direção à base do hálux, em um traço único.
Normal (resposta flexora): todos os dedos fletem para baixo.
Alterado (sinal positivo): o hálux se estende para cima e os demais dedos "abrem em leque". Sugere lesão de neurônio motor superior — na dor cervical, aponta para mielopatia.
Compressão do feixe de raízes nervosas lombossacras abaixo do término da medula espinhal (nível de L1-L2). É emergência cirúrgica.
Sinais de alarme: anestesia em sela, retenção urinária ou incontinência fecal, déficit motor bilateral em membros inferiores, e — ao toque retal — diminuição do tônus do esfíncter anal. A presença de qualquer um desses achados exige transferência no mesmo dia, sem esperar exame de imagem na UBS.
Contrações musculares rítmicas e involuntárias, desencadeadas por alongamento súbito e sustentado de um músculo. Indica hiperexcitabilidade da via piramidal.
Como pesquisar: com o joelho do paciente semifletido, dorsifletir bruscamente o tornozelo e manter a pressão sustentada.
Alterado: batimentos rítmicos e repetidos do pé (tipicamente mais de 3-4 batidas sustentadas). Sugere lesão de neurônio motor superior — achado de mielopatia.
Como pesquisar: com o paciente sentado, o examinador segura o queixo e a região occipital e aplica tração axial suave, elevando levemente a cabeça.
Positivo: alívio da dor cervical ou do sintoma irradiado para o braço. O alívio ocorre porque a tração amplia momentaneamente o forame de conjugação, reduzindo a compressão da raiz. Sugere origem radicular cervical.
Modelo organizacional da atenção primária no SUS, com equipe multiprofissional (médico, enfermeiro, técnico de enfermagem, agentes comunitários de saúde e, em muitos casos, dentista) responsável por uma população adscrita em um território definido, com vínculo longitudinal.
Doença inflamatória crônica que acomete a coluna e as articulações sacroilíacas, tipicamente iniciando antes dos 45 anos. Cursa com dor lombar de padrão inflamatório: rigidez matinal prolongada, melhora com o exercício, piora com o repouso. Pode associar-se a uveíte, psoríase e doença inflamatória intestinal. Inclui a espondilite anquilosante como forma clássica.
Como pesquisar: segurar a falange média do dedo médio do paciente e pressionar/soltar rapidamente a unha para baixo ("flicar"), provocando um pequeno estalo de flexão-extensão da falange distal.
Alterado: flexão involuntária do polegar e do indicador da mesma mão. Sugere hiperreflexia por lesão de neurônio motor superior — achado de mielopatia cervical.
Como pesquisar: pedir ao paciente para caminhar em linha reta, colocando um pé imediatamente à frente do outro (calcanhar tocando a ponta do pé oposto), por vários passos seguidos.
Alterado: dificuldade ou instabilidade acentuada. Sugere comprometimento da via proprioceptiva (coluna posterior) ou cerebelar — achado sugestivo de mielopatia.
Escala do Medical Research Council para graduar a força muscular no exame físico, usada para registrar objetivamente o déficit motor de cada miótomo (ver Sensibilidade por dermátomo + força por miótomo).
Como pesquisar: pedir ao paciente para realizar o movimento testado contra a resistência aplicada pelo examinador, e classificar:
| Grau | Achado |
|---|---|
| 0 | Nenhuma contração visível ou palpável |
| 1 | Esboço de contração (visível ou palpável), sem movimento |
| 2 | Movimento ativo, mas apenas com a gravidade eliminada (plano horizontal) |
| 3 | Movimento ativo contra a gravidade, mas sem resistência adicional |
| 4 | Movimento ativo contra a gravidade e contra alguma resistência |
| 5 | Força normal |
Registrar sempre comparando os dois lados. MRC ≤ 3 e progressivo é critério de via vermelha — indica déficit motor relevante que muda a conduta (ver Quadro 2 do protocolo).
Equipe multiprofissional de apoio matricial às equipes de ESF (fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, terapeuta ocupacional, educador físico, entre outros). Não atende diretamente a população por conta própria; atua em conjunto com a equipe de referência, dando suporte técnico e assistencial compartilhado — inclusive para o manejo biopsicossocial da dor crônica.
Dentro do PMAE, é o conjunto pré-definido de procedimentos (consultas, exames e tecnologias de cuidado) necessários para concluir uma etapa de uma linha de cuidado específica — no caso deste protocolo, a linha de ortopedia/coluna. Em vez do paciente enfrentar filas separadas para cada exame que o especialista solicitar, a OCI empacota tudo num fluxo único, com prazo-alvo definido (a maioria dos estados relata até 60 dias do início ao fim do ciclo) e contrarreferência garantida à UBS de origem ao final.
Programa do Ministério da Saúde (Portaria GM/MS nº 90/2023), parte da Política Nacional de Atenção Especializada em Saúde (PNAES). Substitui a lógica de múltiplas filas isoladas (uma para a consulta, outra para cada exame, outra para o retorno) por fila única, agendamento centralizado e contrarreferência garantida à Unidade de Saúde da Família ao final do ciclo. As OCIs são o mecanismo operacional do PMAE. Mais recentemente, o programa foi reorganizado como "Componente Ambulatorial" dentro do guarda-chuva maior chamado PATE — Programa Agora Tem Especialistas; as duas nomenclaturas aparecem na literatura conforme a data da fonte.
Disfunção de uma raiz nervosa espinhal, causando dor irradiada em padrão dermatomérico (faixa de pele correspondente àquela raiz), associada ou não a déficit motor, sensitivo ou de reflexo na distribuição daquela raiz. Causa mais comum: compressão por hérnia discal.
Como pesquisar: com o paciente sentado, perna solta e relaxada (pendente), percutir com o martelo de reflexos:
Comparar sempre os dois lados. Assimetria ou abolição de um reflexo sugere comprometimento da raiz correspondente (patelar → L4; aquileu → S1).
Sensação de "enrijecimento" articular ao acordar. O dado clinicamente relevante é a duração:
Como pesquisar: pedir ao paciente para ficar em pé, com os pés juntos, primeiro de olhos abertos e depois fechados, observando o equilíbrio por 20-30 segundos. Ficar próximo para amparar uma eventual queda.
Positivo: perda do equilíbrio ao fechar os olhos, que não ocorria de olhos abertos. Indica perda da propriocepção (via da coluna posterior da medula) — achado de mielopatia.
Como pesquisar:
Um déficit sensitivo e motor coerentes na mesma raiz confirma o diagnóstico topográfico de radiculopatia.
Com o paciente em decúbito dorsal e o joelho estendido, o examinador eleva lentamente a perna sintomática, segurando pelo calcanhar, até o limite da dor.
Positivo: reprodução da dor radicular (irradiada, não apenas o desconforto habitual na parte posterior da coxa) entre 30° e 70° de elevação.
É um teste sensível: se negativo, torna a hipótese de hérnia discal com radiculopatia menos provável.
Mesma manobra do Lasègue, mas elevando a perna assintomática (do lado oposto ao da dor).
Positivo: reprodução da dor no membro sintomático (contralateral ao que está sendo elevado).
É um teste específico: se positivo, aumenta bastante a probabilidade de hérnia discal com radiculopatia.
Com o paciente sentado, o examinador inclina passivamente a cabeça para o lado sintomático, estende levemente o pescoço, e aplica pressão axial suave para baixo no topo da cabeça.
Positivo: reprodução da dor irradiada para o membro superior do mesmo lado (não apenas dor cervical local). Sugere compressão radicular cervical por estreitamento do forame de conjugação.
Não é uma manobra única, mas a observação de um padrão postural:
Padrão positivo: piora à extensão/caminhada, alívio à flexão/sentado. Sugere estenose de canal lombar com claudicação neurogênica (diferente da claudicação vascular, que não alivia com a flexão do tronco).
Medida estatística: entre todos os pacientes com um teste ou achado positivo, qual proporção realmente tem a doença em questão. Depende diretamente da prevalência da condição na população testada.
Na prática da triagem de bandeiras vermelhas, isso significa que um achado com "VPP relevante" (como história de câncer prévio) ainda gera relativamente poucos falsos positivos, porque a doença grave que se busca é rara na população da UBS — mas o mesmo achado, isolado e fora desse contexto, pode ser superinterpretado.
Glossário de apoio. Não substitui a leitura do protocolo principal nem o exame clínico completo do paciente.