Dor de cabeça não é diagnóstico
É um sintoma que a classificação internacional divide em mais de trezentas entidades distintas. Saber qual é a sua muda o tratamento inteiro.
A Classificação Internacional das Cefaleias, hoje na terceira edição, organiza todas essas entidades a partir de uma divisão simples. Na cefaleia primária, a dor é a própria doença: o sistema trigeminovascular gera dor sem que exista lesão a ser encontrada em um exame de imagem. Na cefaleia secundária, a dor é sintoma de outra coisa — uma pressão intracraniana alterada, um vaso, uma inflamação, um medicamento.
Essa diferença não é acadêmica. Ela determina se a conduta correta é tratar a dor ou procurar a causa, e o preço de errar o lado é alto nas duas direções. Investigar exaustivamente uma enxaqueca de vinte anos de evolução gera exames, custo e ansiedade sem retorno algum. Tratar como enxaqueca uma dor que começou depois dos cinquenta anos e piora ao tossir pode adiar por meses o diagnóstico de uma lesão de fossa posterior.
As seis cefaleias reunidas aqui foram escolhidas por dois motivos opostos. As três primeiras respondem por praticamente toda a carga de dor de cabeça da população: enxaqueca, cefaleia do tipo tensional e cefaleia em salvas. As três seguintes são raras, quase sempre confundidas com outra coisa, e cada uma ensina algo que as comuns não ensinam — inclusive quando o gatilho da dor é, ele próprio, um sinal de alarme.
Como usar este guia
Cada capítulo traz os critérios diagnósticos internacionais em linguagem direta, o que se sabe sobre o mecanismo, o que funciona no tratamento e o erro clínico mais frequente. Leia primeiro a página seguinte, sobre sinais de alarme: ela vale mais do que os seis capítulos somados. Ao final há um diário de cefaleia para preencher — é o documento que mais encurta uma primeira consulta.
Quando a dor de cabeça
é sinal de outra coisa
A maioria esmagadora das cefaleias é primária e benigna. O trabalho clínico consiste em reconhecer, com segurança, a minoria que não é.
A lista abaixo é a adaptação de um instrumento consagrado na literatura neurológica, conhecido pela sigla SNNOOP10, usado para separar cefaleias que exigem investigação daquelas que exigem tratamento. Nenhum item isolado significa doença grave. O que importa é a presença de qualquer um deles, sobretudo em quem nunca teve dor de cabeça antes.
| Sinal | Por que preocupa |
|---|---|
| Febre, perda de peso ou outro sintoma geral | Infecção do sistema nervoso, doença inflamatória sistêmica, arterite de células gigantes |
| História de câncer | Metástase encefálica ou meníngea |
| Qualquer alteração neurológica que persista | Fraqueza, alteração de fala, desequilíbrio, sonolência ou confusão indicam lesão estrutural |
| Início súbito, no auge em menos de um minuto | Hemorragia subaracnóidea — é a emergência clássica, chamada cefaleia em trovoada |
| Primeira dor de cabeça depois dos 50 anos | Arterite temporal, lesão expansiva, doença vascular |
| Mudança de padrão em quem já tinha dor | Uma cefaleia conhecida que muda de lado, de ritmo ou de intensidade merece reavaliação |
| Dor que depende da posição do corpo | Hipotensão liquórica quando piora em pé; hipertensão intracraniana quando piora deitado |
| Dor desencadeada por tosse, espirro ou esforço | Obstrução ao fluxo liquórico, malformação de Chiari, doença vascular — ver capítulos 4 e 5 |
| Piora progressiva ao longo de semanas | Processo expansivo intracraniano |
| Gravidez ou puerpério | Trombose venosa cerebral, pré-eclâmpsia, apoplexia hipofisária |
| Olho vermelho e doloroso com visão turva | Glaucoma agudo de ângulo fechado |
| Início após traumatismo craniano | Hematoma subdural, sobretudo em idosos e em uso de anticoagulante |
| Imunossupressão ou HIV | Infecções oportunistas e linfoma do sistema nervoso central |
| Uso de analgésico em 10 dias ou mais por mês | Cefaleia por uso excessivo de medicação — a causa evitável mais comum de dor diária |
Procure atendimento de urgência
Dor de cabeça que atinge o auge em segundos e é descrita como a pior da vida; dor acompanhada de febre e rigidez de nuca; dor com perda de força, alteração da fala, da visão ou do nível de consciência; dor após traumatismo em quem usa anticoagulante. Nesses casos o tempo é o fator determinante do desfecho.
1. Enxaqueca
Uma doença neurológica episódica do encéfalo, não uma dor de cabeça forte. A diferença explica por que analgésico comum resolve tão pouco.
A crise de enxaqueca não começa quando a dor começa. Ela tem quatro fases, e a dor é apenas a terceira. Nas horas — às vezes até dois dias — que antecedem a dor, o hipotálamo já está ativo: bocejos repetidos, avidez por doce, irritabilidade, rigidez na nuca, aumento do volume urinário, sensibilidade a cheiro. Quem aprende a reconhecer o próprio pródromo ganha a janela terapêutica mais valiosa que existe nessa doença.
Os critérios
- A
- Pelo menos cinco crises com as características B a D.
- B
- Duração de 4 a 72 horas sem tratamento, ou com tratamento malsucedido.
- C
- Ao menos duas destas quatro: dor de um lado só; dor pulsátil, em latejo; intensidade moderada ou forte; piora com atividade física rotineira, como subir escada — ou leva a evitá-la.
- D
- Durante a dor, ao menos um destes: náusea e/ou vômito; ou intolerância simultânea a luz e a som.
- E
- Não explicada melhor por outro diagnóstico.
Reparar que a intensidade não é critério suficiente e que a incapacidade é: o item que fala em piora com esforço rotineiro está medindo o quanto a crise interrompe a vida, e é isso que separa a enxaqueca das dores de cabeça comuns.
A aura
Cerca de um terço das pessoas com enxaqueca tem aura em pelo menos algumas crises. A forma mais comum é visual: um ponto cintilante que se expande lentamente, com bordas em zigue-zague, deixando atrás de si uma área cega. Também existem auras sensitivas, com formigamento que sobe da mão para o rosto ao longo de minutos, e auras de linguagem, em que a palavra some.

O correlato da aura no cérebro é uma onda de despolarização que atravessa o córtex a poucos milímetros por minuto, seguida de supressão da atividade elétrica. Ela não é um espasmo de vaso, e a enxaqueca não é uma doença de vasos que dilatam: esse modelo foi abandonado. A lentidão dessa onda é o que explica a característica clínica mais útil da aura — ela se instala aos poucos.
Aura ou evento vascular
A distinção se faz pelo modo de instalação, não pela gravidade do sintoma. A aura leva cinco minutos ou mais para se espalhar, produz primeiro fenômenos positivos — luzes, zigue-zagues, formigamento — e só depois o déficit, dura entre 5 e 60 minutos e é inteiramente reversível. Um acidente vascular ou um ataque isquêmico transitório se instala de uma vez, em segundos, e costuma produzir apenas o déficit. Na primeira vez que uma aura aparece, sobretudo depois dos 50 anos, essa diferença precisa ser avaliada por um médico e não deduzida em casa.
Por que dói
A dor da enxaqueca nasce nas meninges. As fibras do nervo trigêmeo que inervam a dura-máter e seus vasos, ao serem ativadas, liberam neuropeptídeos — entre eles o CGRP. O resultado é inflamação neurogênica local e sensibilização das próprias fibras, que passam a responder a estímulos antes indiferentes. Daí a piora ao abaixar a cabeça, ao subir escada, ao tossir.

Essa cadeia foi mapeada com detalhe suficiente para ser interrompida em pontos específicos, e é isso que separa o tratamento atual do de vinte anos atrás. Os anticorpos monoclonais contra o CGRP ou contra o seu receptor foram os primeiros preventivos desenhados especificamente para enxaqueca. Os gepantes, de uso oral, bloqueiam o mesmo receptor sem provocar vasoconstrição — o que abre a porta para pacientes com risco cardiovascular, historicamente excluídos dos triptanos.
O que mudou no Brasil em 2026
A Anvisa aprovou em 25 de maio de 2026 o registro do rimegepanto, primeiro gepante do país, indicado tanto para a crise quanto para a prevenção da enxaqueca episódica em adultos. Aprovação regulatória não é disponibilidade imediata em farmácia nem cobertura por plano de saúde — mas amplia o repertório de quem não responde ou não pode usar triptanos.
O tratamento, em três frentes
| Frente | O que envolve |
|---|---|
| Crise | Anti-inflamatório ou analgésico simples em dose adequada e o mais cedo possível; triptanos; gepantes e ditanos; antieméticos associados. Opioides pioram o prognóstico a longo prazo e devem ser evitados. |
| Prevenção | Indicada a partir de quatro dias de crise por mês, ou antes se houver incapacidade: betabloqueadores, candesartana, topiramato, amitriptilina, flunarizina, valproato, anticorpos anti-CGRP, gepantes orais e, na enxaqueca crônica, toxina botulínica tipo A. |
| Rotina | Regularidade de sono, refeições e hidratação; exercício aeróbico; manejo do estresse. Não é conselho genérico: são as variáveis com maior efeito documentado sobre a frequência de crises. |
A armadilha do analgésico
Usar medicação para crise em dez ou mais dias por mês — triptanos, ergotamínicos, opioides ou combinações — ou em quinze, no caso de analgésicos simples, por mais de três meses, produz uma segunda doença sobreposta: a cefaleia por uso excessivo de medicação. Ela transforma crises episódicas em dor quase diária e só se trata retirando o medicamento sob supervisão.
Gatilhos: o que sustenta e o que não sustenta
Gatilhos com documentação consistente são poucos e quase todos ligados a ritmo: jejum, dormir de menos e dormir demais, desidratação, álcool, ciclo menstrual, mudança brusca de rotina e o período de relaxamento que se segue a um pico de estresse — a crise de sexta-feira à noite não é coincidência.
Alimentos acusados individualmente têm evidência fraca. O caso do chocolate é exemplar: a avidez por doce faz parte do pródromo, de modo que a pessoa come chocolate porque a crise já começou, e depois atribui a crise ao chocolate. A regra prática que resolve a maior parte dessas confusões é anotar: só vale como gatilho aquilo que se repete em pelo menos três crises registradas no diário.
2. Cefaleia do tipo tensional
A mais comum de todas, a menos estudada de todas e a que carrega o nome mais enganoso da classificação.
É a dor em aperto, em faixa, dos dois lados, de intensidade leve a moderada, que não piora ao subir escada e não vem acompanhada de náusea. Nada nela é dramático — e é exatamente por isso que ela raramente chega ao consultório, apesar de ser a cefaleia mais prevalente do mundo e de produzir, pela quantidade de pessoas atingidas, uma carga social comparável à da enxaqueca.
Os critérios
- A
- Pelo menos dez episódios com as características B a D.
- B
- Duração de 30 minutos a 7 dias.
- C
- Ao menos duas destas quatro: localização bilateral; qualidade em pressão ou aperto, não pulsátil; intensidade leve a moderada; ausência de piora com atividade física rotineira.
- D
- Ambos: sem náusea nem vômito; e no máximo um entre intolerância à luz ou ao som — nunca os dois.
- E
- Não explicada melhor por outro diagnóstico.
A classificação separa três formas pela frequência: infrequente, menos de um dia por mês; frequente, de um a catorze dias por mês; e crônica, quinze dias ou mais por mês durante mais de três meses. A passagem da forma frequente para a crônica é o desfecho que interessa evitar, porque é ela que produz incapacidade real e é ela que responde mal a analgésico.
O nome está errado
“Tensional” sugere dor produzida por músculo contraído em resposta a estresse psicológico. A explicação é insuficiente. O que se documenta com consistência é aumento da sensibilidade à palpação dos músculos pericranianos e, nas formas crônicas, sensibilização das vias centrais de dor. O estresse é gatilho, não mecanismo — e a distinção explica por que relaxante muscular funciona tão pouco e por que antidepressivo tricíclico em dose baixa, que atua sobre a modulação central da dor, funciona.
Tensional ou enxaqueca leve?
Boa parte do que se trata como cefaleia tensional é enxaqueca de intensidade menor. Quatro perguntas resolvem a maioria dos casos: a dor piora ao se movimentar? Existe náusea, mesmo discreta? A luz incomoda mais do que o habitual? Você prefere ficar quieto no escuro? Duas respostas afirmativas apontam para enxaqueca — e mudam o tratamento, porque triptano não age em cefaleia tensional verdadeira.
O que funciona
- Crise: analgésico simples ou anti-inflamatório, com parcimônia deliberada. É nesta cefaleia que o uso excessivo de medicação se instala com mais discrição, porque a dor é fraca o bastante para ser tratada todo dia sem que ninguém estranhe.
- Prevenção: amitriptilina em dose baixa é o tratamento com melhor evidência na forma crônica. Nortriptilina e mirtazapina são alternativas.
- Sem medicamento: exercício aeróbico regular, fisioterapia cervical e escapular e terapia cognitivo-comportamental têm eficácia demonstrada e são subutilizados.
3. Cefaleia em salvas
Descrita por Horton nos anos 1930 e ainda hoje diagnosticada com anos de atraso. É considerada uma das dores mais intensas conhecidas em medicina.
A crise é sempre do mesmo lado, ao redor ou atrás do olho, instala-se em minutos, atinge intensidade extrema e termina em quinze minutos a três horas. Vem com sinais autonômicos do mesmo lado — olho vermelho, lacrimejamento, nariz entupido, pálpebra caída — e com um comportamento característico: a pessoa não consegue ficar parada, anda, balança o corpo. É o oposto exato da enxaqueca, em que qualquer movimento piora e o paciente se imobiliza.

Os critérios
- A
- Pelo menos cinco crises com as características B a D.
- B
- Dor forte a muito forte, unilateral, orbitária, supraorbitária e/ou temporal, durando de 15 a 180 minutos sem tratamento.
- C
- Ao menos um sinal autonômico do mesmo lado da dor, ou inquietação e agitação — ou ambos.
- D
- Frequência entre uma crise a cada dois dias e oito crises por dia.
- E
- Não explicada melhor por outro diagnóstico.
O relógio
Nenhuma outra cefaleia é tão previsível no tempo. As crises se repetem em horários fixos, com frequência uma a duas horas depois de a pessoa adormecer, e os surtos se agrupam em semanas ou meses que tendem a voltar na mesma época do ano. Essa dupla periodicidade aponta para o hipotálamo, e estudos de imagem funcional mostram ativação da substância cinzenta hipotalâmica posterior durante a crise.
Na forma episódica, os surtos duram de semanas a meses e são separados por remissões de três meses ou mais, em que nada acontece. Na crônica, as remissões não chegam a três meses. Durante o surto, álcool desencadeia crise em cerca de uma hora; fora dele, não desencadeia nada — dissociação quase patognomônica.
Por que o diagnóstico demora
Dor ao redor do olho com nariz entupido é atribuída a sinusite; dor na face superior, a problema dentário — extrações desnecessárias são comuns na história desses pacientes. O intervalo entre o primeiro surto e o diagnóstico correto ainda se mede em anos, e é um atraso caro: a doença tem tratamento eficaz e taxas de ideação suicida entre as mais altas da neurologia.
O que funciona
- Crise: oxigênio a 100% sob máscara sem reinalação, 12 a 15 litros por minuto, e sumatriptana subcutânea. Analgésico oral é inútil: a crise termina antes de o comprimido ser absorvido.
- Transição: curso curto de corticoide ou bloqueio do nervo occipital maior, até o preventivo fazer efeito.
- Prevenção: verapamil em doses altas, com eletrocardiograma seriado obrigatório; lítio e topiramato como alternativas; anticorpo anti-CGRP na forma episódica.
As três clássicas,
lado a lado
Cinco perguntas separam a maior parte dos casos: onde dói, quanto tempo dura, o que mais acontece, o que você faz durante a crise e o que a piora.
| Enxaqueca | Tensional | Em salvas | |
|---|---|---|---|
| Lado | Um lado, pode alternar | Os dois lados, em faixa | Sempre o mesmo lado, ao redor do olho |
| Duração | 4 a 72 horas | 30 minutos a 7 dias | 15 a 180 minutos |
| Qualidade | Pulsátil, em latejo | Aperto, pressão | Perfurante, em queimação |
| Intensidade | Moderada a forte | Leve a moderada | Muito forte, extrema |
| Acompanha | Náusea, intolerância a luz e som, às vezes aura | Pouco ou nada | Olho vermelho, lacrimejamento, nariz entupido, pálpebra caída — do lado da dor |
| Comportamento | Fica parado, procura escuro e silêncio | Segue as atividades | Não consegue ficar parado, anda, balança |
| Ritmo | Irregular; pode ter relação com ciclo menstrual | Ligada a dias de sobrecarga | Horário fixo, surtos sazonais |
| Piora com | Movimento, luz, cheiro | Nada em especial | Álcool, durante o surto |
| Frequência na população | Cerca de 14% | Cerca de 26% | Cerca de 0,1% |
Um alerta sobre coexistência
Ter uma dessas cefaleias não protege contra as outras, e a combinação mais frequente na prática é enxaqueca somada a cefaleia do tipo tensional na mesma pessoa. Quando alguém descreve “duas dores de cabeça diferentes”, quase sempre está descrevendo exatamente isso — e o tratamento precisa contemplar as duas. Da mesma forma, uma cefaleia primária de longa data não impede o aparecimento de uma cefaleia secundária nova: é a mudança de padrão que deve chamar a atenção, e não a presença de um diagnóstico já estabelecido.
4. Cefaleia da tosse
Explosiva, curta, na nuca, disparada por tossir, espirrar, rir ou fazer força para evacuar. Em cerca de 40% dos casos, o cérebro tem algo a esconder.
A dor aparece imediatamente após uma manobra de Valsalva — qualquer esforço que aumente a pressão intratorácica com a glote fechada — e some em segundos a minutos. Não há náusea, fotofobia nem aura, e fora dos episódios a pessoa está bem.
Os critérios
- A
- Pelo menos dois episódios com as características B a D.
- B
- Desencadeada por, e ocorrendo apenas em associação com, tosse, esforço ou outra manobra de Valsalva.
- C
- Início súbito.
- D
- Duração entre 1 segundo e 2 horas.
- E
- Não explicada melhor por outro diagnóstico.
Por que a ressonância é obrigatória
Aproximadamente 40% das pessoas com esse quadro têm causa estrutural, e a grande maioria delas é a malformação de Chiari tipo I — a descida das amígdalas cerebelares pelo forame magno, que estreita a passagem do líquido cefalorraquidiano. Também aparecem hipotensão liquórica espontânea, tumores de fossa posterior, aneurismas e vasoconstrição cerebral reversível. Nenhuma característica da dor separa com segurança a forma primária da secundária, e a resposta à indometacina tampouco: a ressonância do encéfalo, com atenção à junção craniocervical, é parte do diagnóstico.
A forma primária tem perfil característico: homens acima dos 40 anos, dor bilateral e posterior. Antes dos 40, a probabilidade de causa estrutural aumenta — a forma secundária começa mais cedo, dura mais e tende a se localizar na região occipital.
O que funciona
Confirmada a forma primária, a indometacina é o tratamento de escolha e frequentemente resolve o quadro; topiramato e acetazolamida são alternativas. Havendo causa estrutural, trata-se a causa — na malformação de Chiari sintomática isso pode significar descompressão cirúrgica da fossa posterior, com bons resultados sobre a cefaleia.
5. Cefaleia do esforço
Pulsátil, dos dois lados, durante ou logo após exercício intenso. Na primeira vez que acontece, é uma emergência até prova em contrário.
Diferentemente da cefaleia da tosse, que dispara com um esforço momentâneo, esta exige exercício sustentado e intenso — corrida, natação, levantamento de peso, sexo. Aparece durante ou logo após, é latejante, geralmente bilateral, e dura de minutos a 48 horas. Calor e altitude aumentam a probabilidade.
Os critérios
- A
- Pelo menos dois episódios com as características B e C.
- B
- Desencadeada por, e ocorrendo apenas durante ou após, exercício físico intenso.
- C
- Duração inferior a 48 horas.
- D
- Não explicada melhor por outro diagnóstico.
O primeiro episódio não é um diagnóstico — é uma investigação
O critério exige dois episódios justamente porque o primeiro pode ser a manifestação de algo grave. Dor súbita e intensa durante esforço deve ser tratada como hemorragia subaracnóidea até prova em contrário; as outras hipóteses vasculares são dissecção de artéria cervical e vasoconstrição cerebral reversível. A investigação inclui neuroimagem e estudo dos vasos, e seu rendimento diagnóstico se mede em horas, não em semanas.
A hipótese que quase ninguém lembra
Existe uma entidade chamada cefaleia cardíaca: isquemia miocárdica que se manifesta como dor de cabeça ao esforço, sem dor torácica. É rara e é o diagnóstico em que o erro custa mais caro — prescrever indometacina ou triptano a quem tem angina é o oposto da conduta correta.
O que funciona
- Profilaxia pontual: indometacina antes da atividade previsível é o recurso mais usado; betabloqueador é alternativa em quem treina diariamente.
- Ajuste do treino: aquecimento progressivo, hidratação e cautela com esforço máximo em calor extremo ou altitude sem aclimatação.
- Não abandonar o exercício: na forma primária o quadro tende a ser autolimitado, e a atividade física protege contra as outras cefaleias deste guia.
6. A cefaleia “da hipoglicemia”
A dor de cabeça de quem pula o almoço existe e tem critérios próprios. O nome dela não é hipoglicemia — e a correção muda o tratamento.
Poucas explicações populares são tão aceitas quanto esta: passou da hora de comer, o açúcar do sangue caiu, a cabeça doeu. O raciocínio é intuitivo, o remédio parece óbvio e melhorar depois de comer parece confirmar tudo. A classificação internacional das cefaleias é explícita em sentido contrário.
A entidade reconhecida chama-se cefaleia atribuída ao jejum: dor difusa, não pulsátil, em geral leve a moderada, que surge durante jejum de oito horas ou mais e desaparece em até 72 horas depois de retomada a alimentação. Quanto mais longo o jejum, maior a probabilidade de ela aparecer.
O que a classificação de fato afirma
A cefaleia do jejum não guarda relação com a glicemia. Ela ocorre na ausência de hipoglicemia; a hipoglicemia induzida por insulina não desencadeia crise em pessoas com enxaqueca; e dor de cabeça não é queixa de quem chega ao pronto-socorro com hipoglicemia sintomática. Não há evidência conclusiva de associação causal.
Então o que é
Duas explicações cobrem quase todos os casos, e nenhuma delas é açúcar no sangue. A primeira, e a mais importante na prática, é que o jejum é um dos gatilhos mais consistentes de enxaqueca: quem tem enxaqueca e passa mal ao pular refeições não tem “dor de hipoglicemia”, tem uma crise disparada por gatilho conhecido — e a classificação determina que esses casos sejam codificados como enxaqueca. A segunda é a abstinência de cafeína, que tem cefaleia própria e costuma coincidir com pular o café da manhã.
A exceção clínica que continua valendo
Nada disso torna a hipoglicemia inofensiva. Em quem usa insulina ou sulfonilureias, e nos raros casos de insulinoma, ela é um evento perigoso e pode incluir dor de cabeça. A diferença está no contexto: ali a dor vem com sudorese fria, tremor, palpitação, fome intensa ou confusão, e a glicemia medida está de fato baixa. Cefaleia isolada, sem esse cortejo e sem medição, não é evidência de hipoglicemia.
O que fazer com isso na prática
Se a sua dor de cabeça aparece quando você atrasa refeições, o primeiro passo não é comer doce: é verificar se as crises preenchem critérios de enxaqueca. Nesse caso existe tratamento específico, e a regularidade das refeições passa a ser parte dele.
Diário de cefaleia
Duas semanas de registro valem mais, em uma primeira consulta, do que qualquer exame de imagem em cefaleia primária.
Preencha no dia, não de memória. Duas informações costumam ser esquecidas e são as mais importantes: a contagem de dias com qualquer dor, mesmo fraca, e a contagem de dias em que algum analgésico foi tomado — é a segunda que revela a cefaleia por uso excessivo de medicação.
| Data | Início | Duração | Dor 0–10 | Onde doeu | Sintomas junto | Gatilho suspeito | Remédio (nome, dose, hora) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
O que levar à consulta
- Este diário preenchido, com a contagem de dias com dor e de dias com medicação no mês.
- A lista de todos os medicamentos usados para dor, incluindo os de venda livre, os compostos com cafeína e os que foram tomados “só de vez em quando”.
- A idade em que a dor de cabeça começou e como ela era no início.
- História de cefaleia na família, especialmente enxaqueca em mãe ou irmãs.
- Exames de imagem anteriores em mídia digital, não apenas o laudo.
- Para mulheres: relação das crises com o ciclo menstrual e uso de contraceptivo hormonal.
Fontes e limites
deste guia
O que está aqui reflete os critérios diagnósticos internacionais vigentes e as diretrizes terapêuticas mais recentes. O que não está aqui é a sua história clínica.
Todos os critérios diagnósticos reproduzidos neste guia foram adaptados, em linguagem acessível, da terceira edição da Classificação Internacional das Cefaleias. A quarta edição está em elaboração pela Sociedade Internacional de Cefaleia e deve revisar, entre outros pontos, os critérios da cefaleia do tipo tensional e a fronteira entre cefaleias primárias e secundárias — motivo pelo qual este material será atualizado quando ela for publicada.
Limites
Este documento tem finalidade educativa. Não estabelece diagnóstico, não substitui consulta médica e não deve ser usado para iniciar, suspender ou ajustar qualquer medicamento. Doses foram mencionadas apenas quando fazem parte da definição do tratamento na literatura, e nunca como orientação de prescrição. Se você reconheceu o seu padrão em algum dos capítulos, o passo seguinte é uma avaliação clínica — não uma automedicação mais bem informada.
Referências
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- Do TP, Remmers A, Schytz HW, et al. Red and orange flags for secondary headaches in clinical practice: SNNOOP10 list. Neurology. 2019;92(3):134-44.
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- Stovner LJ, Hagen K, Linde M, Steiner TJ. The global prevalence of headache: an update, with analysis of the influences of methodological factors on prevalence estimates. J Headache Pain. 2022;23:34.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução-RE nº 2.105, de 22 de maio de 2026. Registro do hemissulfato de rimegepanto sesqui-hidratado. Diário Oficial da União, 25 maio 2026.
