O que é insônia crônica, e por que o remédio não é a resposta de longo prazo
Insônia não é apenas "dormir mal". É um diagnóstico clínico com critérios definidos, e a distinção entre uma noite ruim e um transtorno instalado muda completamente o tratamento.
Critérios diagnósticos
De acordo com a Classificação Internacional dos Transtornos do Sono (ICSD-3) e o DSM-5, fala-se em insônia crônica quando há dificuldade para iniciar o sono, para mantê-lo (despertares frequentes) ou despertar precoce sem conseguir voltar a dormir — apesar de oportunidade e ambiente adequados —, com prejuízo diurno (fadiga, irritabilidade, queda de atenção e memória, preocupação com o sono), em pelo menos três noites por semana, por três meses ou mais.
Abaixo de três meses, trata-se de insônia aguda ou de curta duração, em geral reativa a um evento identificável. O problema começa quando ela não vai embora com o evento.
Por que a TCC-I é a primeira linha
As principais diretrizes internacionais são convergentes: a Academia Americana de Medicina do Sono (AASM, 2021), o Colégio Americano de Médicos (ACP, 2016) e a Diretriz Europeia de Insônia (2023) recomendam a TCC-I como tratamento inicial da insônia crônica em adultos, antes de qualquer hipnótico.
O que os ensaios clínicos mostram
- Cerca de 70 a 80% dos pacientes apresentam melhora clinicamente relevante; aproximadamente metade atinge remissão.
- Redução média de 20 a 30 minutos na latência para adormecer e no tempo acordado durante a noite.
- Eficácia semelhante à dos hipnóticos nas primeiras semanas, mas superior a partir de 6 a 12 meses, porque o ganho persiste após o fim do tratamento.
- Melhora concomitante de sintomas depressivos, ansiosos e de dor crônica.
Os medicamentos (zolpidem, benzodiazepínicos, antidepressivos sedativos) têm lugar em situações específicas e por tempo limitado. O que eles não fazem é corrigir os mecanismos que perpetuam a insônia, e é exatamente isso que a TCC-I faz.
O que a TCC-I não é
Não é "higiene do sono". Higiene do sono é coadjuvante; sozinha não trata insônia crônica, e a maioria dos pacientes já a pratica quando chega ao consultório. A TCC-I é um protocolo estruturado, de quatro a oito semanas, que combina intervenções comportamentais de alta exigência de adesão com a reestruturação das crenças sobre o sono.